sábado, 15 de julho de 2017

ecoponto

Talvez seja esse o propósito: estou aqui para aprender a difícil arte do desapego. volto a sentar-me. ninguém se manifesta. o professor faz sinal ao próximo que se levante. se calhar estou na turma errada. não ouvi nada do que foi dito até agora. o meu cérebro ficou aprisionado na saliença da sua clavícula. ela tem das mais belas clavículas que já vi. preciso urgentemente de a deslargar ou perderei o interesse antes do fim do primeiro semestre. sou mesmo um péssimo aluno. começar por pequenas coisas, objetos, distinguir o que realmente faz falta daquilo que não necessitamos. diz o professor. durante a missa também não ouvi nada, só pensava na quantidade de afeição que deixei em objetos e que após a minha morte, deixam de ter qualquer utilidade. imaginei os meus pais a desocupar o sótão, o ecoponto cheio da minha existência. haviam de fazer uma pilha e queimar-me com todos os meus pertences. principalmente as palavras. todas as que deixei depositadas em cadernos, gostava de arder no meio delas.