domingo, 22 de outubro de 2017

Victoria

Se as pessoas fossem bolos, Miss Smile seria sem qualquer dúvida um Victoria Sandwich. Disse-lhe isto uma vez, e não foi à toa. Espero que ela não tenha levado a mal. Quando relaciono pessoas com bolos é porque gosto realmente muito dessa pessoa (e de bolos). No caso concreto de Miss Smile, ela possui todos os ingredientes necessários para se gostar, mesmo aquele polvilhado um pouco lamechas, nela é primoroso. É o que acontece com o Victoria. A combinação de uma massa amanteigada e doce, não enjoativa, recheada de frutos vermelhos e natas, com um toque muito ténue de baunilha e limão. Perfeito para dias cinzentos de chuva, acompanhado com uma generosa chávena de chá (sim, ocasionalmente bebo chá, sou um treze avos inglês). Quem nunca provou, faça o favor de o fazer. É um bolo de dificuldade média (para alguém sem grandes competências culinárias como eu), mas vale todo o trabalho e dedicação. 



receita aqui, uso natas em vez do double cream, daquelas refrigeradas.


sábado, 21 de outubro de 2017

yağmur

fecha os olhos. imagina-te devorado por outra boca que não essa. nunca a sentiste para além do olhar, mas assim que o cheiro dela te enche os sentidos, é quase como se a pudesses provar. vai e espalha esse cheiro da memória. enche com ele os lençóis, a tua mortalha suja. alimenta os poucos miócitos moribundos que te sobejam. dá-lhes essa ilusão palpitante enquanto a montas. é só prazer menor, sem previsão de chuva para os próximos minutos. 


royals

Eu nunca vi uma pedra formada de carbono puro,
Como pão nos casamentos e sandes no cinema.
Orgulho-me do meu bafo a cerveja,
No subúrbio assolado
t1 alugado, não causa inveja.

Mas todos os blogs gostam de viagens ao estrangeiro,
Calças rasgadas nos joelhos,
sapatilhas brancas, parecem socas de enfermeiro.
Mas eu não me importo
Porque os ratos falam nos meus sonhos!

Todos curtem a maçã X, modelo em cinza sideral,
Relógios com ponteiros,
Carro novo, lá se vai o décimo-terceiro.
Mas eu tou a leste,
Nã sou apanhado pelo dinheiro.

Nós nunca seremos um casal.
(casal)
Nã corre sangue azul nas minhas veias.
Tu és artigo de luxo para mim,
Procuras outro tipo de diversão.
Para ti nem existo,
Estou abaixo de lixo.
Mas, baby, se eu mandasse
(mandasse, mandasse)
Vivias numa tenda comigo.

Meus amigos e eu não seguimos as modas
Contamos os trocos no pub, antes de pedir as bebidas.
E todos que nos conhecem sabem
Que estamos tesos,
O que escrevemos não vende!

Mas toda a bloga fala de golfe, porto tónico,
Os melhores restaurantes,
Roupa de marca e amor platónico. Que irónico!
Eu nã me importo
Partilho o táxi com ela nos meus sonhos!

Todos querem o seu público, tuitam merdas sem sentido,
Alugam jatos para fingirem ser ricos,
Expõem-se nas redes sociais, peixe miúdo sem escama.
Mas eu sou imune
Nã sou apanhado pela fama.

Nunca serei a tua metade
(metade)
Nã está escrito nas estrelas
Nã é que eu nã te mereça
Mas deves tar caída por outro
Deixa-me ser o teu escravo
(escravo)
Podes pedir o que quiseres, (menos dinheiro)
E, baby, eu faço,
Eu desfaço, eu escrevo,
Só existo para ti.

Ooh, ooh, ooh
O nosso amor pode ser a sério
E eu até gostava de ser teu escravo.
Ooh, ooh, ooh
A vida é maravilhosa quando estás nela
Pena eu acordar quando a manhã chega.


inspirado no royals da Lorde.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

ratos

É difícil extrair todo o conteúdo enquanto preparo o pequeno-almoço. Se tivesse acordado ao primeiro sinal, talvez o sonho não sublimasse das remelas para o esquecimento. Assim só ficou cristalizada a parte dos ratos. Estava num pátio espaçoso, bem iluminado e quente. Quando caminhava para o interior da casa, três ratos saíram das floreiras e dançaram em volta dos meus pés. Talvez fossem ratazanas jovens, ou ratos bem alimentados, mas eram meus, de estimação. Baixei-me para lhes fazer festas. Primeiro foi o cinzento que tinha pelo raro e uma orelha deficiente, depois o tigrado, que era muito educado e me deu os bons dias. Em português. 


sábado, 14 de outubro de 2017

Ofélia

“Fechado” podia ler-se do lado de fora na tabuleta dupla, apesar de serem dez da manhã. Nas traseiras, o funcionário carregava os últimos sacos de escarcha e nevoeiro para o ecocentro da vila, esvaziando finalmente a loja. Apesar do negócio ter caído bastante depois da subida do imposto sobre as perturbações atmosféricas, ainda recebiam de vez em quando umas encomendas lá do sul, sobretudo aguaceiros e borrascas. Mas as despesas eram muitas, mesmo reduzindo o pessoal a um único funcionário, havia ainda a renda da loja e as contas de electricidade com vários dígitos. Manter trovoadas e tornados, mesmo em pó, tornara-se demasiado dispendioso. As nortadas esvaziavam-se das embalagens seladas, o borriço tinha de ser sacudido todas as semanas e as neblinas perdiam a validade em meia dúzia de dias. Já para não falar da manutenção do aquário de nuvens, a principal atracção da loja, mas que exigia uma atmosfera controlada e várias encomendas mensais de gases; um balúrdio! Agora estava vazio. Por ordem do patrão, o Sr. Mau-tempo, o funcionário carregara tudo no seu motociclo com caixa e descartou aleatoriamente num dos contentores do ecocentro. 

Sir John Everett Millais, 'Ophelia' (1851)



sábado, 19 de agosto de 2017

koszmar

... ou a fábrica de pesadelos

a mulher que cheirava a bolo de laranja e biscoitos de manteiga, atravessou a rua em modo automático vinda do talho, direccionando o carrinho das compras para a última paragem daquela manhã: a frutaria. assim que dobrou a esquina, com o carro a rolar atrás de si bem pesado, percebeu que a compra de limões e pêssegos teria de ficar para outro dia. a culpa era do carregamento de figos negros que o moço empilhava à porta do estabelecimento, atraindo fregueses como moscas gigantes que se acotovelavam e aos safanões, enchiam sacos quase atirando os cestos ao chão. atravessou para o outro passeio, evitando a confusão assassina e o piso escorregadio de fruta esmagada. talvez fosse a primeira vez que atravessava a rua naquele sítio, fora da passadeira, sem rampa para o carrinho. reparou que aquele passeio era mais sombrio, mas também mais largo, bem nivelado e livre dos obstáculos que normalmente os comerciantes colocavam no exterior de forma a chamarem os clientes. já esquecida dos limões e dos pêssegos do Paraguai que os miúdos gostavam, o carrinho das compras corria veloz atrás de si, sem rodas a lamentarem-se ou quebras no cimento para contornar, quando travou de repente mesmo em frente de um estranho edifício.  



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

órbita

Cruzei-me com a mulher que canta no coro. No meio de tanta gente foi como se as nossas órbitas sofressem o efeito de atracção de um astro maior e sem controlo, colidimos. Caminhava contra o vento, o cabelo bastante mais curto, a pele beijada pelo sol. Ainda mais perfeita, cada vez mais distante.