sexta-feira, 18 de agosto de 2017

órbita

Cruzei-me com a mulher que canta no coro. No meio de tanta gente foi como se as nossas órbitas sofressem o efeito de atracção de um astro maior e sem controlo, colidimos. Caminhava contra o vento, o cabelo bastante mais curto, a pele beijada pelo sol. Ainda mais perfeita, cada vez mais distante.


domingo, 13 de agosto de 2017

jesteśmy

O melro pousou no muro branco e dali ficou a admirar a erva do jardim. Não há vizinhos, foram todos de férias. Mas o melro não sabe, por isso espera, olha demorado para as aberturas da casa por onde é normal sair o som das pessoas. Quando se sente seguro, o melro salta do muro branco para a erva do jardim e eu perco-o do meu campo de visão. 

Boy and cat. New York City. 1954. Vivian Maier

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Żabka

Enquanto esperava pela minha vez na fila do supermercado, reparei que a t-shirt da pessoa que estava à minha frente, tinha marcas das molas nos ombros.

 Nazaré Portugal, 1956  Edouard Boubat

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

serrote

isto das novelas e dos romances de faca e alguidar não são invenções recentes, e se agora vendem muitos livros, imaginem o impacto que tinham quando nem sequer havia televisão, ou rádio, ou escrita, e o pessoal se entretinha em volta de uma fogueira a ouvir histórias que nem sempre tinham finais felizes. na Grécia antiga não era muito diferente, mas para não parecer assim tão mal chamaram-lhe mitologia. temos por exemplo o caso do senhor Dédalo, conhecido por ser pai daquele moço, o Ícaro, que resolveu voar até ao sol e ficou mais do que bronzeado. era um inventor muito conceituado naquela época, mas foi obrigado a fugir de Atenas porque, segundo reza a história, num acto de raiva, empurrou o sobrinho Perdix por uma ravina, só porque este inventou o serrote e outras cenas muito à frente. Dédalo não era boa pessoa, mas tinha muitos contactos, convivia na altura com gente famosa e dai que conseguiu refugio em Creta, onde conheceu o rei Minos. mas Dédalo era dado a meter-se em sarilhos e deu consigo numa valente alhada quando resolveu ajudar a mulher de Minos, Pasífae, construindo-lhe uma vaca em madeira, tão perfeita que enganou o touro branco de cornos dourados que Minos tinha recebido de Poseidon. da relação de Pasífae com o tal touro nasceu o lendário Minotauro, que foi mantido num labirinto projectado por Dédalo. quando o rei descobre que a mulher foi ajudada pelo inventor, este foge de Creta com Ícaro, usando umas asas construídas de penas e cera. o que aconteceu ao pobre moço já todos sabemos, mas Dédalo salva-se e consegue chegar à Sicília, onde novamente se torna famoso e o preterido do rei Cócalo. quando Minos descobre que Dédalo está vivo, exige ao rei da Sicília que o entregue para ser punido. mas Cócalo não está preocupado com a raiva de Minos e ignora o pedido do monarca. este então resolve invadir a Sicília, mandando para lá uma horda de selvagens. mas Cócalo não é completamente estúpido e quando vê aquele pessoal a invadir as belas praias, resolve ir pessoalmente ter com Minos e convida este para o seu palácio. o desfecho é inesperado. Cócalo assassina Minos durante o banho, fervendo o monarca de Creta em água fervente. 

Laerte Coutinho 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

loira

tem sido muito complicado encontrar temas interessantes sobre os quais escrever. a minha vida até se parece com um filme do Terrence Malick, só que sem actores interessantes, ou piscinas glamorosas cheias de gente bonita. vi o último do Luc Besson, o Valerian, mas não sei se estou rendido. acho que falta qualquer coisa, talvez actores mesmo. entretanto fiquei animado com Atomic Blonde, em parte graças à estonteante Charlize Theron. gostei do trailer, se calhar mais do que vou gostar do filme, porque às vezes acontece que as melhores cenas estão no trailer, como aquela em que ela arruma com dois gajos armados usando apenas um sapato. mas o que é garantido, é mesmo a banda sonora, porque afinal os anos 90 são a minha cena, e desde que comecei a ouvir, não quero outra coisa.

"let's look at the trailer":



terça-feira, 8 de agosto de 2017

empadão

Há uma espécie nova de maldade em mim ainda por catalogar, quando decido fazer empadão e não convido a moça das chaves. Ainda por cima ela ligou no supermercado, sem saber o que fazer para o jantar, e eu disse-lhe com alguma satisfação que tinha feito empadão. Depois o carma encarregou-se de o deixar insosso, comestível, mas muito aquém. 

Wolfgang Tillmans, 2014

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

olhos

Encostei-me ao lado esquerdo do passadiço para deixar passar a família que vinha em direção contrária. Duas crianças pequenas, uma adolescente e um casal talvez da minha idade. Os mais jovens vinham divertidos a descer e a subir pelo passadiço, pendurados nas cordas como piratas a escalar a amurada do navio. O pai tentava sem grande esforço colocar alguma ordem na fila humana, mas também podia não ser o pai. Havia qualquer coisa que destoava no conjunto familiar, pareciam todos animados com o passeio, à exceção da mulher. A mulher que vinha em último naquele grupo, a que eu achei que seria a mãe, tinha um olhar triste e quando passei por ela, olhou-me para lá dos olhos. Não sei exatamente como descrever, mas o seu olhar era magnético sem qualquer encanto. Era mais um grito, um pedido de ajuda, do que um olhar. Não podia fazer nada a não ser seguir o meu caminho, sempre com a expressão da mulher a rondar-me os pensamentos. Um olhar não era motivo para interpelar aquele homem, mas não conseguia afastar a ideia de que algo não estava certo. Podia ser tudo fruto da minha imaginação, ou uma angustia recente que rondava os pensamentos da mulher e que ela não conseguira esconder ao passar por mim. Fosse o que fosse, caminhei até casa imaginando os possíveis diálogos com essa mulher, se naquele caminho estivéssemos sós. 

Vivian Maier, 1954

domingo, 6 de agosto de 2017

despensa

Restam-me apenas alguns minutos para o dia terminar e não consegui escrever. Numa tentativa desesperada de arranjar um tema, arrasto-me pela bloga e verifico que ninguém escreveu sobre o estado do tempo, ou sobre a arte de entrar sem pagar um cêntimo, nem mesmo sobre alguma romaria dessas tantas que animam as aldeias do nosso querido Portugalinho. Tenho saudades dos foguetes, das voitures dos emigras a encher todos os estacionamentos, da música alta e arranhada a sair dos altifalantes montados na torre da igreja. E prontos, é isto, não tenho mais nada a dizer. Posso finalizar com uma descrição do conteúdo da minha "despensa" que não é mais que um armário de cozinha onde "tetriso" vários enlatados e massas. Sim, eu sei que tenho vários problemas. 




sábado, 5 de agosto de 2017

procela

Foi assim que nos imaginei durante uma semana, percorrendo a costa do báltico em poucas palavras, o ar quente a encher o carro. Todos os dias esperávamos o lusco-fusco como crianças pequenas, para mergulhar nas águas calmas, o areal deserto, a sua nudez muito pálida rivalizando com a lua. Imaginei todas as horas sendo infinitas, a luz a dançar-lhe no cabelo, a pele dos braços arrepiada, os lábios entreabertos enquanto assistíamos à descida dos morcegos. Ela tem o cheiro de mil pingos de chuva e o sabor atordoante de um raio, mas só na minha imaginação.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

hematoma


o hematoma na cabeça é a prova do quão imperfeitos somos. é que ao contrário dos outros animais, a cabeça está numa posição superior ao coração. quando o sangue não chega, o cérebro diz para o corpo cair e assim receber o sangue de que necessita. o coração então diminui as batidas provocando uma queda de tensão. de repente tudo era calor, e simultaneamente frio. a cor esvaziou-se da pele. as pernas amoleceram. os ouvidos foram os últimos a deixarem-me e ouvi o meu ombro a deslizar pela parede. nota para mim: quando começar a rodar, deita-te e espera que o carrossel pare.




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

recados

 ... para a bloga que vai ficar com o cigano alguns dias em agosto.


• O cigano não ama. Diz que fica enjoado. Ainda não percebi bem de onde vem isso, pensei que fosse do calor, mas ele só ama na chegada da Primavera, mas só no primeiro dia, e depois deixa de amar. Aliás, ele não ama, nem se apaixona, ele nem sequer tenta gostar. O guarda da ala psiquiátrica recomendou cuidado. Também não dá abraços, pode rosnar bons dias e raramente usa as palavras por favor ou obrigado.  

• Deixei uma lista de assuntos que o cigano gosta de discutir e que devem ser mencionados um pouco por toda a bloga de modo a manterem o cigano distraído e de bom humor durante os quinze dias que vão ter de o aturar. Se ainda não foram de férias para algum destino sem internet, recomendo que o façam, ainda vão a tempo. Ora aqui vai: Tempo e a previsão meteorológica para os próximos dias, estratagemas para fugir ao fisco, métodos para comer gratuitamente, a arte de entrar sem pagar um cêntimo e conseguir sair sem o auxílio da polícia ou seguranças, e por último, feiras e romarias de verão, onde andas tu, Ana Malhoa.

• É importante manter as caixas de comentários abertas e desimpedidas para o cigano comentar sempre que lhe apetece (sim, é um recado para a senhorita) e o que lhe apetece. O cigano não tem papas na língua. Não o contrariem, a menos que queiram depois comprar à força cinco tapetes pelo preço de sete, ou panos de cozinha com o galo de barcelos a gritar cocorocó em chinês, ou ainda pior, ler coisas tristes e deprimentes no seu blog. Evitem o uso de palavras como amor, chaves, ikea, móveis, coelho, eflúvio, clavícula, trabalho, lauto, ígneo, comoção, alegre, feliz, veloz, rápido, célere, figo, andorinha, ósculo, beijo, língua, pele, abraço, toque, carícia, vaca, horário, matinal, cedo, imposto, contribuição, finanças, caro, dívidas, calote, lerna, sapo, socancra, prolegômenos, casamento, etc…

• Se ele insistir muito num assunto, deem-lhe razão que ele acaba por se calar. Se necessário, em casos extremos, rasguem elogios, digam coisas bonitas sobre as parolices que ele comenta. É importante que respondam aos comentários e nunca, em circunstância alguma, limitem a resposta a um smile. Normalmente ele abandona o post ao fim de três comentários, se os sintomas persistirem, recomendo que procurem ajuda legal. 

• O cigano pode usar palavrões, e muito raramente vai escrever “não” com todas as letras. Também é comum escolher títulos que não lembram ao menino jesus e usar expressões em desuso como asnidade ou necear. Recomendo que mantenham um dicionário por perto ou o Priberam na barra de marcadores, ou então não façam nada e comentem: Acabaste de me roubar as palavras da boca. O cigano adora roubos e tudo o que está relacionado com eles, por isso é normal que abunde o plágio. 

• Se ele continuar sem escrever, porque pelos vistos está a atravessar uma fase de bloqueio sem qualquer motivo aparente, pelo menos a nível fisiológico, tentem convencê-lo com pregões, saldos, liquidações, promoções, leve dois pague zero. Ele acaba sempre por conseguir postar qualquer coisa, mas mesmo que a qualidade não mereça, tentem comentar, façam uso da vossa capacidade inventiva, mintam se necessário, para o bem-estar da bloga em geral. 

• Ele precisa de três comentários por dia. Pelo menos. Por favor não se esqueçam disso. Podem usar no fim de cada parágrafo smiles simples, a piscar o olho, de boca escancarada, língua de fora. Mas se puderem evitem os abraços e os beijos, beijinhos, beijocas, principalmente as abreviaturas bjs, jinhos, bjos, bijis, xoxos. A energia positiva é contagiosa e prejudicial.


(recado inspirado no Paulo Farinha e nos bons e bons blogues)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

medusóide

O homem passou quase um mês sem juntar palavras. No princípio achou que era o melhor que tinha a fazer para se livrar do vício. Talvez, se o homem não sentisse cada linha como se fossem milhares de formigas a percorre-lo. Observo o homem que deixou de escrever junto à estante. Meia dúzia de livros velhos definham no pó. Mesmo assim mergulha de muito alto em páginas que encontra, livros que o escolhem, como se precisasse ser salvo. Conheço o desconforto, o folhear aleatório. Eu inventei aquelas palavras que não o levam a lado nenhum. Mas como outros antes dele, foi na salvação que encontrou a perdição. Para escrever, diz o homem que deixou de escrever e passa os dias a alisar a barba com a ponta dos dedos, trocou um saco cheio de mentiras. E as mentiras quando as lançou no início, eram pequenas, como sementes.