sexta-feira, 18 de agosto de 2017

órbita

Cruzei-me com a mulher que canta no coro. No meio de tanta gente foi como se as nossas órbitas sofressem o efeito de atracção de um astro maior e sem controlo, colidimos. Caminhava contra o vento, o cabelo bastante mais curto, a pele beijada pelo sol. Ainda mais perfeita, cada vez mais distante.


domingo, 13 de agosto de 2017

jesteśmy

O melro pousou no muro branco e dali ficou a admirar a erva do jardim. Não há vizinhos, foram todos de férias. Mas o melro não sabe, por isso espera, olha demorado para as aberturas da casa por onde é normal sair o som das pessoas. Quando se sente seguro, o melro salta do muro branco para a erva do jardim e eu perco-o do meu campo de visão. 

Boy and cat. New York City. 1954. Vivian Maier

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Żabka

Enquanto esperava pela minha vez na fila do supermercado, reparei que a t-shirt da pessoa que estava à minha frente, tinha marcas das molas nos ombros.

 Nazaré Portugal, 1956  Edouard Boubat

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

serrote

isto das novelas e dos romances de faca e alguidar não são invenções recentes, e se agora vendem muitos livros, imaginem o impacto que tinham quando nem sequer havia televisão, ou rádio, ou escrita, e o pessoal se entretinha em volta de uma fogueira a ouvir histórias que nem sempre tinham finais felizes. na Grécia antiga não era muito diferente, mas para não parecer assim tão mal chamaram-lhe mitologia. temos por exemplo o caso do senhor Dédalo, conhecido por ser pai daquele moço, o Ícaro, que resolveu voar até ao sol e ficou mais do que bronzeado. era um inventor muito conceituado naquela época, mas foi obrigado a fugir de Atenas porque, segundo reza a história, num acto de raiva, empurrou o sobrinho Perdix por uma ravina, só porque este inventou o serrote e outras cenas muito à frente. Dédalo não era boa pessoa, mas tinha muitos contactos, convivia na altura com gente famosa e dai que conseguiu refugio em Creta, onde conheceu o rei Minos. mas Dédalo era dado a meter-se em sarilhos e deu consigo numa valente alhada quando resolveu ajudar a mulher de Minos, Pasífae, construindo-lhe uma vaca em madeira, tão perfeita que enganou o touro branco de cornos dourados que Minos tinha recebido de Poseidon. da relação de Pasífae com o tal touro nasceu o lendário Minotauro, que foi mantido num labirinto projectado por Dédalo. quando o rei descobre que a mulher foi ajudada pelo inventor, este foge de Creta com Ícaro, usando umas asas construídas de penas e cera. o que aconteceu ao pobre moço já todos sabemos, mas Dédalo salva-se e consegue chegar à Sicília, onde novamente se torna famoso e o preterido do rei Cócalo. quando Minos descobre que Dédalo está vivo, exige ao rei da Sicília que o entregue para ser punido. mas Cócalo não está preocupado com a raiva de Minos e ignora o pedido do monarca. este então resolve invadir a Sicília, mandando para lá uma horda de selvagens. mas Cócalo não é completamente estúpido e quando vê aquele pessoal a invadir as belas praias, resolve ir pessoalmente ter com Minos e convida este para o seu palácio. o desfecho é inesperado. Cócalo assassina Minos durante o banho, fervendo o monarca de Creta em água fervente. 

Laerte Coutinho 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

loira

tem sido muito complicado encontrar temas interessantes sobre os quais escrever. a minha vida até se parece com um filme do Terrence Malick, só que sem actores interessantes, ou piscinas glamorosas cheias de gente bonita. vi o último do Luc Besson, o Valerian, mas não sei se estou rendido. acho que falta qualquer coisa, talvez actores mesmo. entretanto fiquei animado com Atomic Blonde, em parte graças à estonteante Charlize Theron. gostei do trailer, se calhar mais do que vou gostar do filme, porque às vezes acontece que as melhores cenas estão no trailer, como aquela em que ela arruma com dois gajos armados usando apenas um sapato. mas o que é garantido, é mesmo a banda sonora, porque afinal os anos 90 são a minha cena, e desde que comecei a ouvir, não quero outra coisa.

"let's look at the trailer":



terça-feira, 8 de agosto de 2017

empadão

Há uma espécie nova de maldade em mim ainda por catalogar, quando decido fazer empadão e não convido a moça das chaves. Ainda por cima ela ligou no supermercado, sem saber o que fazer para o jantar, e eu disse-lhe com alguma satisfação que tinha feito empadão. Depois o carma encarregou-se de o deixar insosso, comestível, mas muito aquém. 

Wolfgang Tillmans, 2014

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

olhos

Encostei-me ao lado esquerdo do passadiço para deixar passar a família que vinha em direção contrária. Duas crianças pequenas, uma adolescente e um casal talvez da minha idade. Os mais jovens vinham divertidos a descer e a subir pelo passadiço, pendurados nas cordas como piratas a escalar a amurada do navio. O pai tentava sem grande esforço colocar alguma ordem na fila humana, mas também podia não ser o pai. Havia qualquer coisa que destoava no conjunto familiar, pareciam todos animados com o passeio, à exceção da mulher. A mulher que vinha em último naquele grupo, a que eu achei que seria a mãe, tinha um olhar triste e quando passei por ela, olhou-me para lá dos olhos. Não sei exatamente como descrever, mas o seu olhar era magnético sem qualquer encanto. Era mais um grito, um pedido de ajuda, do que um olhar. Não podia fazer nada a não ser seguir o meu caminho, sempre com a expressão da mulher a rondar-me os pensamentos. Um olhar não era motivo para interpelar aquele homem, mas não conseguia afastar a ideia de que algo não estava certo. Podia ser tudo fruto da minha imaginação, ou uma angustia recente que rondava os pensamentos da mulher e que ela não conseguira esconder ao passar por mim. Fosse o que fosse, caminhei até casa imaginando os possíveis diálogos com essa mulher, se naquele caminho estivéssemos sós. 

Vivian Maier, 1954

domingo, 6 de agosto de 2017

despensa

Restam-me apenas alguns minutos para o dia terminar e não consegui escrever. Numa tentativa desesperada de arranjar um tema, arrasto-me pela bloga e verifico que ninguém escreveu sobre o estado do tempo, ou sobre a arte de entrar sem pagar um cêntimo, nem mesmo sobre alguma romaria dessas tantas que animam as aldeias do nosso querido Portugalinho. Tenho saudades dos foguetes, das voitures dos emigras a encher todos os estacionamentos, da música alta e arranhada a sair dos altifalantes montados na torre da igreja. E prontos, é isto, não tenho mais nada a dizer. Posso finalizar com uma descrição do conteúdo da minha "despensa" que não é mais que um armário de cozinha onde "tetriso" vários enlatados e massas. Sim, eu sei que tenho vários problemas. 




sábado, 5 de agosto de 2017

procela

Foi assim que nos imaginei durante uma semana, percorrendo a costa do báltico em poucas palavras, o ar quente a encher o carro. Todos os dias esperávamos o lusco-fusco como crianças pequenas, para mergulhar nas águas calmas, o areal deserto, a sua nudez muito pálida rivalizando com a lua. Imaginei todas as horas sendo infinitas, a luz a dançar-lhe no cabelo, a pele dos braços arrepiada, os lábios entreabertos enquanto assistíamos à descida dos morcegos. Ela tem o cheiro de mil pingos de chuva e o sabor atordoante de um raio, mas só na minha imaginação.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

hematoma


o hematoma na cabeça é a prova do quão imperfeitos somos. é que ao contrário dos outros animais, a cabeça está numa posição superior ao coração. quando o sangue não chega, o cérebro diz para o corpo cair e assim receber o sangue de que necessita. o coração então diminui as batidas provocando uma queda de tensão. de repente tudo era calor, e simultaneamente frio. a cor esvaziou-se da pele. as pernas amoleceram. os ouvidos foram os últimos a deixarem-me e ouvi o meu ombro a deslizar pela parede. nota para mim: quando começar a rodar, deita-te e espera que o carrossel pare.




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

recados

 ... para a bloga que vai ficar com o cigano alguns dias em agosto.


• O cigano não ama. Diz que fica enjoado. Ainda não percebi bem de onde vem isso, pensei que fosse do calor, mas ele só ama na chegada da Primavera, mas só no primeiro dia, e depois deixa de amar. Aliás, ele não ama, nem se apaixona, ele nem sequer tenta gostar. O guarda da ala psiquiátrica recomendou cuidado. Também não dá abraços, pode rosnar bons dias e raramente usa as palavras por favor ou obrigado.  

• Deixei uma lista de assuntos que o cigano gosta de discutir e que devem ser mencionados um pouco por toda a bloga de modo a manterem o cigano distraído e de bom humor durante os quinze dias que vão ter de o aturar. Se ainda não foram de férias para algum destino sem internet, recomendo que o façam, ainda vão a tempo. Ora aqui vai: Tempo e a previsão meteorológica para os próximos dias, estratagemas para fugir ao fisco, métodos para comer gratuitamente, a arte de entrar sem pagar um cêntimo e conseguir sair sem o auxílio da polícia ou seguranças, e por último, feiras e romarias de verão, onde andas tu, Ana Malhoa.

• É importante manter as caixas de comentários abertas e desimpedidas para o cigano comentar sempre que lhe apetece (sim, é um recado para a senhorita) e o que lhe apetece. O cigano não tem papas na língua. Não o contrariem, a menos que queiram depois comprar à força cinco tapetes pelo preço de sete, ou panos de cozinha com o galo de barcelos a gritar cocorocó em chinês, ou ainda pior, ler coisas tristes e deprimentes no seu blog. Evitem o uso de palavras como amor, chaves, ikea, móveis, coelho, eflúvio, clavícula, trabalho, lauto, ígneo, comoção, alegre, feliz, veloz, rápido, célere, figo, andorinha, ósculo, beijo, língua, pele, abraço, toque, carícia, vaca, horário, matinal, cedo, imposto, contribuição, finanças, caro, dívidas, calote, lerna, sapo, socancra, prolegômenos, casamento, etc…

• Se ele insistir muito num assunto, deem-lhe razão que ele acaba por se calar. Se necessário, em casos extremos, rasguem elogios, digam coisas bonitas sobre as parolices que ele comenta. É importante que respondam aos comentários e nunca, em circunstância alguma, limitem a resposta a um smile. Normalmente ele abandona o post ao fim de três comentários, se os sintomas persistirem, recomendo que procurem ajuda legal. 

• O cigano pode usar palavrões, e muito raramente vai escrever “não” com todas as letras. Também é comum escolher títulos que não lembram ao menino jesus e usar expressões em desuso como asnidade ou necear. Recomendo que mantenham um dicionário por perto ou o Priberam na barra de marcadores, ou então não façam nada e comentem: Acabaste de me roubar as palavras da boca. O cigano adora roubos e tudo o que está relacionado com eles, por isso é normal que abunde o plágio. 

• Se ele continuar sem escrever, porque pelos vistos está a atravessar uma fase de bloqueio sem qualquer motivo aparente, pelo menos a nível fisiológico, tentem convencê-lo com pregões, saldos, liquidações, promoções, leve dois pague zero. Ele acaba sempre por conseguir postar qualquer coisa, mas mesmo que a qualidade não mereça, tentem comentar, façam uso da vossa capacidade inventiva, mintam se necessário, para o bem-estar da bloga em geral. 

• Ele precisa de três comentários por dia. Pelo menos. Por favor não se esqueçam disso. Podem usar no fim de cada parágrafo smiles simples, a piscar o olho, de boca escancarada, língua de fora. Mas se puderem evitem os abraços e os beijos, beijinhos, beijocas, principalmente as abreviaturas bjs, jinhos, bjos, bijis, xoxos. A energia positiva é contagiosa e prejudicial.


(recado inspirado no Paulo Farinha e nos bons e bons blogues)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

medusóide

O homem passou quase um mês sem juntar palavras. No princípio achou que era o melhor que tinha a fazer para se livrar do vício. Talvez, se o homem não sentisse cada linha como se fossem milhares de formigas a percorre-lo. Observo o homem que deixou de escrever junto à estante. Meia dúzia de livros velhos definham no pó. Mesmo assim mergulha de muito alto em páginas que encontra, livros que o escolhem, como se precisasse ser salvo. Conheço o desconforto, o folhear aleatório. Eu inventei aquelas palavras que não o levam a lado nenhum. Mas como outros antes dele, foi na salvação que encontrou a perdição. Para escrever, diz o homem que deixou de escrever e passa os dias a alisar a barba com a ponta dos dedos, trocou um saco cheio de mentiras. E as mentiras quando as lançou no início, eram pequenas, como sementes. 


sábado, 15 de julho de 2017

ecoponto

Talvez seja esse o propósito: estou aqui para aprender a difícil arte do desapego. volto a sentar-me. ninguém se manifesta. o professor faz sinal ao próximo que se levante. se calhar estou na turma errada. não ouvi nada do que foi dito até agora. o meu cérebro ficou aprisionado na saliença da sua clavícula. ela tem das mais belas clavículas que já vi. preciso urgentemente de a deslargar ou perderei o interesse antes do fim do primeiro semestre. sou mesmo um péssimo aluno. começar por pequenas coisas, objetos, distinguir o que realmente faz falta daquilo que não necessitamos. diz o professor. durante a missa também não ouvi nada, só pensava na quantidade de afeição que deixei em objetos e que após a minha morte, deixam de ter qualquer utilidade. imaginei os meus pais a desocupar o sótão, o ecoponto cheio da minha existência. haviam de fazer uma pilha e queimar-me com todos os meus pertences. principalmente as palavras. todas as que deixei depositadas em cadernos, gostava de arder no meio delas. 


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Jugoslávia

O homem de meia idade de barriga escorada no polo XL, diz que finalmente me apanhou. Estremeço, mas não reajo. Reconheço nas suas mãos sapudas a minha mochila. O homem parece grande apesar de estar de calções e chinelos de dedo, ou serei eu pequeno, agora que fui apanhado. Já fui apanhado algumas vezes, mesmo nos sonhos. Estamos num parque de campismo e ele apanhou-me, ou julga que me apanhou. Abre a mochila e começa a tirar as provas do crime como se fosse um agente da autoridade. Há objectos que não me pertencem, como aquele relógio antigo da casio. É provável que o tenha roubado. A minha avó tinha um assim. Lembro-me muito bem porque uma vez ela estava doente e fiquei com ela todo o dia sem sair de casa. Era como uma penitência pela doença dela, e ela deu-me uma tarefa muito simples. Vai ao meu quarto e na gaveta de cima tira o relógio e na debaixo, o termómetro. Disse, entrecalando duas tossidelas secas. Entre o quarto e a salinha da televisão não distava assim muito, mas pelo caminho consegui deixar cair o termómetro. Na altura pensei que me tinha corrido bem, pois se tivesse deixado cair o relógio era muito mais grave, não imaginando a fragilidade daquela coisa cheia de mercúrio que chegou às mãos da minha avó sem qualquer utilidade. Deixaste cair o termómetro? Perguntou vermelha de raiva. Mas o relógio estava inteiro, um casio digital de bracelete em plástico, exactamente igual ao que o homem gordo atirara para a pilha de pilhagem que crescera aos seus pés. Nunca mais fiquei a tomar conta da minha avó. Nem nunca mais ela me pediu que executasse tarefas que envolviam o transporte de objectos frágeis. O homem dos calções também estava vermelho de raiva e despenteara a meia dúzia de pelos que lhe corriam pela cabeça, sem encontrar o atlas de tamanho A3, capa forrada a pele verde e letras douradas, muito desactualizado, que tinha misteriosamente sumido durante a sesta. Sabia desde o início que não estava na mochila, mas mesmo assim foi agradável a súbita subida de adrenalina. 



domingo, 25 de junho de 2017

volátil

Já tinha decidido esquecê-la quando apareceu na noite de quinta, transmutada num sonho. Disse-lhe coisas desagradáveis, mas mesmo assim ela não arredou pé, conservando um sorriso que podia ser de troça ou desequilibrado. Precisava de uma amostra do meu sangue. E eu que até estava capaz de a destratar pela tampa que me deu, rendi-me à ideia de lhe ceder sem hesitar uma parte de mim. É só um pouco, disse, encostando-me na pele do braço um capilar de vidro muito fino, aberto no fundo. Não senti qualquer dor, apenas a proximidade magnética do seu corpo que eu não via, hipnotizado pelo liquido vermelho vivo que subia lentamente na extremidade do tubo. 


sexta-feira, 9 de junho de 2017

meias

Ela, a vizinha do quarto, jura-me que ninguém dobra meias. Sou o último da minha espécie de dobra meias. Ela não dobra, assegurou-me, mas como faz para as manter juntas, não me disse. Começo a desconfiar que ela não tem cinquenta tons de preto e cinzento gasto, com ligeiras variações de uma ou duas riscas nos tornozelos. Amanhã se calhar compro um rolo de fita adesiva.



segunda-feira, 5 de junho de 2017

ensopada

Malmequeres de um branco muito leitoso, com estames de amarelo-vivo, coroavam a cabeça pousada aos pés de um salgueiro. Aproximei-me dos lábios purpúreos e vulneráveis, julgando-a ensopada na morte. O pescoço de porcelana pintado de veias finas, pulsava levemente, ritmado com o voo das libelinhas azul-eléctrico.


domingo, 4 de junho de 2017

pandicídio

hoje matei um panda. confesso que nem o vi aproximar-se. era um panda pequeno.
preto e branco.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

mizeria

cheguei com uma hora de atraso e mil pedidos de desculpa. é normal atrasar-me, mas nunca mais de uns minutos. andei perdido, disse. era meio dia e eu sem mapa e um sol que era um pináculo, perdi o sentido. enquanto andei perdido, andei feliz, mas não disse. ocupei o lugar vazio e comemos. só lá fui para me perder, pensava, enquanto engolia um pedaço de carne sem sabor e recusava a salada de pepino com natas. estava do outro lado da porta e já lhe sentira o cheiro. não suporto salada de pepino com natas. no regresso era necessário perder-me de novo, repetir ruas nos dois sentidos e observar as sombra que dantes eram plenas de luz. vejo mais quando estou perdido. sinto o dobro quando estou sem sentido. 


mizeria- salada de pepino e natas, muito típica. 

sábado, 27 de maio de 2017

néon

assim que optas por reduzir o consumo de álcool e manter o coração amordaçado, ela senta-se à tua frente, aquela que quase pisaste, a mesma que quase convidaste para um copo. e em menos de uma hora brindamos quatro vezes, e decides que amanhã é um bom dia para ficar sóbrio, porque afinal ela tem um peixe de estimação.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

queda

No momento em que o homem tentava sair do buraco onde tinha caído, pensou: “caso sobreviva, aqui está uma boa história para contar aos meus netos.” O buraco onde tinha caído não era assim tão fundo e sem dificuldade impulsionou-se de lá para fora. Era uma valeta de escoamento de água que estava cheia da chuva que não parava de cair. O homem que queria contar uma história não tinha visto a valeta, ali no seguimento do passeio mal iluminado. De um momento para o outro o chão sólido desaparecera debaixo dos pés, e sem saber como estava submerso até ao pescoço. Não havia ninguém por perto, era madrugada e continuava a chover. O homem que queria contar uma história saiu do buraco e pingou até uma paragem de autocarro, onde se sentou para avaliar o seu estado. O telemóvel no bolso das calças era um pequeno aquário sem qualquer uso. Pensou que tinha de continuar a caminhar ou o frio seria insuportável, mas não tinha bem a certeza de quanto mais teria de caminhar até casa, e uma dor mordia-lhe a articulação do joelho de tal forma que só queria ficar ali e esperar que a manhã lhe trouxesse o primeiro transporte. Foi então que se lembrou de ter passado por uma cabine telefónica e tentou a sorte. A mulher que tinha um sono leve atendeu ao terceiro toque. Dez minutos depois recolhia o homem que queria contar uma história com bafo de álcool, encharcado até aos ossos. Não falaram, o homem estava envergonhado e com dores. Ela ajudou-o a despir-se no meio da cozinha, onde deixou ficar a roupa como se fosse um animal abatido, inanimado na tijoleira. A mancar ligeiramente, meteu-se na banheira e tomou um duche bem quente. A mulher que tinha um sono leve já estava deitada na cama, em breve teria de se levantar e ir trabalhar. O homem que queria contar uma história, deitou-se e abraçou a mulher que não queria saber que o homem tinha bebido um número indeterminado de shots e que por isso não se apercebera do fim do passeio. 


domingo, 14 de maio de 2017

raleira

o capataz coça a cabeça. tem os pés enfiados na água que não escorreu pelo ralo porque em certo ponto o cano de esgoto não tem a inclinação que devia ter e a água empossa no centro do pátio. se continuar a chover podemos fazer mergulho na nova piscina. agora que penso nisso, o mesmo se passou na minha vida. meti água. muita. ela não está minimamente interessada em mim. sou como aquele cano que não escoa nada. agora que penso nas coisas que me disse, talvez ela só estivesse a ser simpática. coço a cabeça. tento acenar-lhe ao longe, mas ela não está minimamente interessada em mim. difícil era entender se ela estivesse.


domingo, 7 de maio de 2017

wieloryb

... ou baleia.

acordei com a minha mãe a chamar por mim. já vou, respondi a saltar da cama. depois percebi onde estava, e que tudo não passava de um sonho. as baleias também faziam parte do sonho. estavam junto à costa e saltavam fora de água, com as barbatanas abertas como se fossem levantar voo. ou como se as mães delas chamassem por elas. o mergulho de regresso ao azul límpido era estrondoso, provocando o deslocamento de colunas de água que chegavam até ao cimo das rochas de onde as observávamos, salpicando o mundo de sal e felicidade.

roubado daqui


sábado, 6 de maio de 2017

resto

esta sexta-feira, enquanto a maioria das pessoas procurava a iluminação do centro da cidade para afogarem as rotinas em vários decilitros de álcool, optei por seguir a pé pelo percurso mais longo, em sentido contrário da luz. depois lembrei-me que o corpo exige alimento e demorei nas prateleiras cheias, equilibrando com cuidado os preços e o peso dos trocos perdidos pelos bolsos. o espaço estava vazio de clientes, os funcionários esperavam ansiosos para fecharem as portas e também eles rumarem para o centro, atraídos como traças. já não havia carnes expostas nas montras, só embalada. perdi-me no corredor das cervejas, namorei por alguns minutos a importada, mas acabei por trazer nacional. no fim gastei mais porque o azeite português estava em promoção, os tomates a 3.99zł o quilo. chego a casa e descalço-me. antes que a fadiga me atire ao tapete, ponho na grelha duas kielbasas de porco e a cerveja no congelador. arrumo as compras, descubro duas garrafas de azeite no armário e o frigorífico vazio. janto em frente ao portátil, lavo a loiça, faço uma lista de compras, actualizo o orçamento. depois de um streeptease para a máquina da roupa e vizinhança que esteja atenta, desligo a luz e danço sapateado até à cama. quando a cabeça se ajusta à almofada, penso que nunca mais é segunda e desejo que o fim de semana passe rápido, como se tudo fosse um sonho tolo. 


segunda-feira, 1 de maio de 2017

papagaios

a minha versão de "A Senhora dos Papagaios" da Palmier



 outras versões aqui, aqui e aqui e ainda mais aqui
e continua aqui e por aqui, aqui
e espero que me perdoem se esquecer de alguém... mas também há mais aqui, aqui, aquiaqui, e aqui

domingo, 30 de abril de 2017

ouriçar

O problema de não conseguir escrever é em parte também consequência de não ler. Ultimamente não leio. Absolutamente nada. Mas tudo me faz falta. É como se respirasse só com um pulmão, mastigasse com metade da boca. É como estar embriagado, mas ressacado ao mesmo tempo e não conseguisse escapar pela estreita fenda da inibição. O que me salva nestes dias são os sonhos. O último foi com mamas, muitas mamas, algumas tão grandes que nem via o sol. 


quinta-feira, 27 de abril de 2017

шишка*

Não sonhava desde que vi o meu pai morto numa laje negra. Estava numa larga divisão de uma casa centenária que albergava muitas pessoas sentadas, nem todas contra a parede como era o meu caso. O rapaz diante de mim, que partilhava o canapé de três lugares com uma senhora mais velha, perguntou se eu escrevia. Disse-lhe que escrevia ocasionalmente, tinha total domínio sobre as vogais, mas as consoantes às vezes falhavam por serem muitas. A rapariga ao meu lado riu alto, dirigindo a atenção dos presentes para a nossa conversa. Isto é um assunto sério, disse o jovem com ar ameaçador, estendendo-me um inquérito. A rapariga ao meu lado recuperou a seriedade e o silêncio avançou pela sala à medida que os papéis eram distribuídos do centro para os cantos. Alguém no extremo direito da sala ditava instruções, mas eu mal conseguia ouvir o que dizia. A rapariga ao meu lado virara-me as costas e preenchia exaustivamente os espaços em branco. Reparei então que apesar de jovem, usava roupas antigas, um longo vestido com rendas, do tempo dos reis e das princesas. O rapaz estava todo vestido de preto e não voltara a olhar para mim, levantando ocasionalmente a cabeça em direcção da voz feminina que vinha da extremidade da sala. A velha a seu lado também usava um desses vestidos com rendas até aos pés e uma grande peruca dourada, óculos na ponta do nariz. A parte da sala que cabia no meu campo de visão, era decorada com faustosos e pesados gobelins, canapés e bergeres de todas as cores e feitios. Ao fundo, no extremo, toda a parede era rasgada em janelas altas e estreitas, de caixilhos simétricos e alinhados com as faias do jardim A ala direita era interrompida por um grande biombo florido, todo trabalhado em caracóis sem fim. Era desse ponto que a voz da mulher vinha, mas pelo percurso quebrava-se, tornava-se esbatida, perdendo conteúdo, força, desaguava nos meus ouvidos em fragmentos como “crocodilo”, “Anne Frank”, “poeira”, “arremedo”, “pinha*”. 







quarta-feira, 19 de abril de 2017

zimno

às vezes vejo as notícias e acho estranho as pessoas andarem de manga curta. aqui liguei o aquecimento.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

gnossienne

o mundo acaba amanhã, disse o velho que se sentou ao meu lado no mesmo banco virado para o mar. depois puxou de um cigarro e fumou em silêncio. o fumo entrou-me pelos olhos, picando a pupila fragilizada pela claridade. talvez ele não tenha dito que o mundo acabava amanhã, mas outra coisa qualquer sobre o azul esbatido, ou uma reflexão sobre o monte de penas que ali jazia a poucos metros. é estranho, mas era capaz de jurar que o ouvi dizer que o mundo acabava amanhã, e ele parecia tão certo disso quanto eu. e apesar de estarmos os dois certos, para grande espanto, o mundo continuou.



domingo, 9 de abril de 2017

coraçom










omtam este poeta este emxemplo e diz que as espáduas e o celebro acusarom o coraçom, dizemdo:
— Nós ssenpre ssosteemos grande afam em andando de cá e de llá em muytos trabalhos; e todo nos este coraçom come e num faz mais que suspiraar, e numca sse comtenta com amore; e elle está ocçioso e nom faz nem dura trabalho. Nom lhe demos de ver sua amada!
E assy o fezerom, ordenando o celebro os olhos pra nom sse abrirem. Ho coraçom começou a auer fraco, e disse aas espáduas e ao celebro:
— Amygos, dade-me de ver minha amda, ajudade-me, ca eu mouro com desgoosto.
A espádua e o celebro diserom que lh’o nom queriam dar, e dizian-lhe:
— Sse tu queres veer tua dama, toma affam, assy como nós fazemos; d’outra guysa, nom queremos que suspires quanto nós trabalhamos.
Em esta perfia esteuerom per espaço de dias, tanto que o coraçom pos muita fraqueza e as espáduas começarom de enfraqueçer, e outrossy o celebro.
E os pees diserom:
— Nom podemos andar.
E as mãaos diserom:
— Nom podemos trabalhar.
E as espáduas diserom:
— Nom podemos carregar.
Veemdo esto o celebro tomou de abrir os olhos para dar de ver ao coraçom; e o corpo era ja posto em tamta fraqueza, que os olhos nom sse poderom abrir. E per esta perfia o corpo morreo: e elle morto morrerom as espáduas e o celebro com todolos outros membros.

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Pom este poeta emxemplo per nosso amaestramento e diz, rreprehendendo que todos somos membros em huma Republica, e todos neçessarios huns aos outros. Soldados e trabalhadores são mãaos e pees, o Rey celebro, os ricos estomago, o poeta coraçom. Sse disser o lavrador que nom quer trabalhar, pra que o outro coma, elle ha de ser o primeiro que ha de padecer fome. Se os soldados nom defenderem a patria, o Rey nom governar, os rricos nom distribuirem o que ajuntárão dantes, e cada membro sse apartar, morrerom todos.

 
Plagiado d' o Livro de Esopo, Fabulário português medieval do séc.XV , "Os membros e o corpo".

domingo, 2 de abril de 2017

कर्म

decides não escrever e passar o domingo a limpar. tens tudo a brilhar, principalmente a cozinha onde demoraste mais tempo. tomas banho porque os lençóis foram mudados, a cama espera-te com cheiro a sabonete. tens fome, aqueces leite, abres o armário de cima para o chocolate em pó. o frasco escorrega e bate no balcão e depois parte-se no chão em mil pedaços. está tudo coberto de chocolate. até tu ficaste coberto de chocolate. 


quinta-feira, 30 de março de 2017

Þríhnúkagígur


o tamanho da solidão duplica em sentido descendente.




niewidzialny

Senti-me soalho gasto agarrado aos teus pés, desejando que não partisses. Onde vais? Espera. Depois fui porta querendo ser obstáculo no teu caminho, e depois da porta de caixilharia em alumínio que atravessaste sem bater, fui escada, corredor, passeio. Fui sombra, gotas de água, perdi o nome quando fui vidro e estilhaçado, dividido em infinitos pedaços, fui no teu enlace, na saliência da tua sola, até perder-me, até ser nada. Fui ar, odor agarrado ao teu pescoço, som de passos, fui até deixar de ver. Voltei sozinho. Menos que uma migalha, cego, sem reflexo ou imagem, um espectro de ausência. Eu não existo quando não estás comigo.




segunda-feira, 27 de março de 2017

desistir

Finto a página em branco. Escrevo que a noite já caiu e depois apago. Não consigo descrever a cor daquela hora. Precisava de uma noite amena propícia a enredos simples, mas nem a noite está amena, nem os enredos são simples. Repito a mesma música até as notas saírem pelos poros, na esperança que elas expulsem palavras alojadas entre as camadas. Fecho os olhos e imagino-a deitada num sonho. Toda a repetição é como uma oração. Volto ao início e tento acalmar a violência dos punhos lutando contra o ar, cansando a raiva, atirando contra o tapete a frustração, mas nem assim as palavras pousam nos ombros e ditam ao ouvido o que vem a seguir. Se desistir, pouco me resta.  


quarta-feira, 22 de março de 2017

sexta-feira, 17 de março de 2017

lanígero

eu queria cinco filhas. o meu avô teve sete, mas eu ficava feliz com cinco, ou quatro, ou mesmo só uma. o meu avô era um bom homem, por isso teve sete filhas. para ele todas elas valiam mais do que ouro, por isso sem ninguém saber, ele era o homem mais rico do mundo. nunca quis ser o mais rico, sempre disse que me contentava com cinco filhas e um rebanho de ovelhas. gostava de ter um rebanho de ovelhas, e atravessar os montes com elas. depois na altura certa, tosava as bichas e tratava a lã, e comprava também um tear, porque sempre me fascinou o entrelaçar dos fios. e com cinco filhas e um rebanho médio de ovelhas, seria o homem mais feliz do mundo.


quinta-feira, 16 de março de 2017

luz

III


A noite foi sem dúvida o pior momento do primeiro dia, e se não fosse o peso do cansaço a esmagar-me como um insecto que é apanhado por um camião a duzentos numa autoestrada, talvez nunca tivesse adormecido. Caminhara com esperanças de encontrar alguém ou um sinal de humanidade quando chegasse ao topo da encosta, mas para onde quer que olhasse só havia mata densa e outras encostas que subiam como corcundas cinzentas do rio. Escureceu rapidamente, não havia qualquer fonte de iluminação até onde a vista alcançava, e o frio enleou-se com cheiro a mar em todas as coisas vivas e não vivas. Valeu-me na altura uma reentrância na rocha abrigada do vento, forrada de musgo seco e caruma. Talvez tenha chorado, não me lembro, fazia tanto frio que as lágrimas congelavam, congestionando os canais. No céu a lua era um risco quase a desaparecer e protegido pela sua luz muito ténue, terei sonhado que a vénus de Botticelli, toda ela pele muito branca e nua, caminhava para mim no areal, empurrada por zéfiro. Acordei com o chilreio de um bando de piscos embrenhados nos arbustos, estiquei o braço para desligar o despertador, mas os pássaros não tinham qualquer respeito. Para além das dores que sentia nas articulações, experimentava uma novidade, tipo um prurido desagradável que não tinha princípio nem fim, e por todo o corpo estalavam bolhas rubras, evidências de que fizera parte do menu degustativo de formigas e aranhas. A sensação de perigo iminente era constante, sabia sem saber muito bem como, que deixara de estar no topo da cadeia, mesmo que os uivos da noite anterior estivessem distantes. Foi com esta ideia em mente que me atirei com todas as forças à fabricação de fogo, já tinha visto vídeos no youtube, precisava de um pau a direito, com cerca de dois palmos, e uma casca de árvore onde, por fricção das duas partes, conseguiria produzir suficiente calor para incendiar um tufo de vegetação seca. Como qualquer indivíduo nascido no século vinte, tinha toda a teoria, mas nenhuma prática. Ao fim de várias tentativas e muitas bolhas nas mãos, uma pequena nuvem de fumo deu origem a umas chamas contidas, quase microscópicas. O primeiro fogo animou-me o espírito, confortou-me a alma,  elevou-me pela cadeia alimentar até ao topo. Estava tão satisfeito com o que havia conseguido que me levantei num pulo e ensaiei uma pequena dança de vitória, quebrando o pau em dois, e apagando o fogo que tão arduamente tinha conseguido avivar. 

domingo, 12 de março de 2017

leucocrata

II

Às vezes penso que o tempo antes daquela madrugada em que acordei na praia, nunca existiu. Era como se tivesse nascido naquele dia, expelido do ventre do mar com quarenta anos, usando apenas umas trusses made in china. Mas onde é que eu estava? Sim, já me recordo, tinha caminhado cerca de três horas pelo areal até à foz do rio, mas nada era como no dia anterior. Não havia casas, nem prédios, estradas, pontes, pessoas. As margens do rio eram aligeiradas no encontro com o mar, arenosas, mas escarpadas, graníticas para o seu interior. Em tudo parecia o mesmo sítio, só que noutro tempo, talvez passado ou futuro. Mas isto sou eu a embelezar o momento, porque naquela manhã de agosto no princípio do mundo, estava completamente cego de sede e não pensava muito. Caminhei o mais rápido que conseguia pela margem do rio até o areal ser substituído por seixos e rochas desgastadas, marcadas pelos diferentes níveis do rio. Desci com cuidado, mas a água era tão cristalina que não me apercebi que o fundo era bem mais fundo e quando o pé não se apoiou na rocha seguinte, caí na água com estrondo. Parecia acabada de descongelar, mas o sabor era algo indescritível, não tinha memória de alguma vez ter bebido assim uma água, mas podia ser da sede excessiva ou da secura da língua. De imediato senti o alívio de todas as dores, a pele que queimara levemente ao sol, recuperou totalmente e as forças voltaram aos membros como por milagre. Completamente saciado, estendi-me numa rocha ao sol, contemplando a margem norte onde era suposto existir a invicta. A escarpa granítica era atravessada por alguns riachos, quedas de água, que desapareciam no volume imenso do rio, brilhando intensamente como fios de prata. Um movimento fora da água fez-me desviar rapidamente o olhar. Não queria acreditar, mas peixes corpulentos saltavam no ar, contra a corrente do rio. Agora que olhava com atenção, via que outros peixes, mais pequenos, se aproximavam nas águas baixas, inspeccionando com cautela a minha sombra. Aqueles peixes não eram exactamente iguais aos que tinha visto na montra do restaurante, pressupus que fossem tainhas, embora nunca tivesse visto tainhas a saltarem à tona. Pus-me de pé e experimentei gritar bem alto “está ai alguém?”; “olá”; “socorro”; “tenho fome”. Mas a única resposta que obtive foi um eco incompleto. Ocorreu-me então que talvez me tivesse inscrito num daqueles programas de sobrevivência em ilhas desertas, mas se calhar tinha batido com a cabeça em alguma árvore e não me lembrava de nada, só daquela noite do restaurante e da mama atrevida que espreitava fora do soutien. Apalpei a cara e a cabeça à procura de uma contusão que atestasse essa novíssima teoria, mas não encontrei nada. Se estava num programa de sobrevivência, era suposto haver câmaras a filmarem, e senti algum embaraço por ali estar de cuecas. Isso era outra coisa que me intrigava, porquê que não tinha mais roupa. Resolvi então escalar a vertente sul até ao ponto mais alto, e daí poderia ter uma perspectiva mais ampliada do sítio onde me encontrava. A subida não foi fácil, descalço e praticamente nu, mas valeu-me o facto de ter encontrado algumas pinhas com pinhões muito mirrados e algumas silvas com amoras silvestres pouco maduras. Foi o primeiro de muitos festins. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

klątwa

Ontem tossi tanto que acabei por perder parte da voz. Mesmo assim, muito rouco, quase afónico, não recusei juntar-me a uns amigos que acenavam de um pub, e é claro também não consegui evitar beber uma (ou duas, isso é irrelevante) cerveja fresquinha, e depois, perdido por cem perdido por mil, também não consegui parar de falar. Tornei-me aquele indivíduo que tem a mania de transformar tudo em piada e tem uma história que se enquadra em qualquer cenário. A mim ninguém me cala. Nem as bactérias. É a maldição dos maneis.


domingo, 5 de março de 2017

trusses

I

A mais bela lembrança que guardei daquele início de noite, foi a sua camisa transparente e a doce revelação de meia auréola saindo à revelia do soutien. Era de um tom pálido rosado, larga, sem ser muito volumosa. Às vezes penso nela. Jantamos num pitoresco restaurante com vista para o mar. Havia o tradicional empregado irritante e o ruído das mesas vizinhas que não permitiam qualquer tipo de intimidade. Quando saímos tentei convencê-la num passeio pela praia quase deserta, o areal tingido por um esplendoroso pôr-do-sol, os meus dedos ágeis acariciando-lhe o pescoço, desejosos por descerem todos por ela abaixo. Mas algo aconteceu, uma urgência qualquer apitou no ecrã e ela despediu-se com dois beijos, desaparecendo num táxi anónimo. Fiquei abandonado ao meu tesão, hesitante à porta do restaurante, entre o que podia vir a ser no dia seguinte uma meia, ou uma ressaca inteira. O sol mergulhava as últimas orlas num mar pastoso, entrei e pedi um whisky duplo. Não tenho bem a certeza do que aconteceu depois, bastante bebido, terei caminhado pela praia e a certa altura deixei as roupas num monte e entrei na absoluta escuridão marinha.

Terá sido assim que comecei o primeiro dia no Paleolítico superior, numa madrugada com dez mil anos, mais coisa menos coisa, de trusses estreadas, encolhido de frio, com metade da cara enterrada na areia. Levantei a cabeça cuidadosamente com medo de entornar o cérebro líquido e fiquei a olhar para a névoa estática sobre o mar. A praia parecia mais extensa, como se a maré tivesse recuado o dobro da distância, mas podia ser uma ilusão de óptica causada pela neblina. Não havia ninguém, nem vestígios de alguém ter passado por ali, mas na altura estava demasiado aturdido para me aperceber da falta de humanidade. Trôpego, questionei a quantidade de exageros que teria cometido na noite anterior, na qualidade rasca do whisky, depois pensei nas minhas coisas. Olhei em volta mas não havia nada que se assemelhasse a roupa ou sapatos, menos ainda chaves de casa, ou carteira. Teria sido roubado? Subi em direcção às dunas esperando encontrar a estrada que percorria a orla marítima. Mas ali não havia estrada, nem casas, apenas uma vegetação rasteira que se estendia até ao limiar do medo, terminando com fileiras densas de pinheiros e bétulas. Voltei a descer para o mar, era mais fácil caminhar pela areia molhada. Se continuasse para norte acabaria por encontrar o restaurante, ou algum telefone público. Na altura não estranhei o silêncio que envolvia o mundo, talvez porque as ondas rebentassem com força na praia e as gaivotas e outras aves marinhas guinchavam agitadas. Não sei quantos quilómetros terei percorrido sem encontrar qualquer sinal de civilização, já não sentia frio, apenas fome e sede. Mais que uma vez voltei a subir as dunas para encontrar sempre a mesma paisagem, ocorreu-me a certa altura que podia estar a ser alvo de uma brincadeira de mau gosto, uma partida dos colegas de trabalho. Se calhar estava mais a norte ou a sul, algum sítio recôndito, mas qual a piada de uma partida dessas? E foi por essa altura, quase sem forças, que comecei a avistar o que me parecia ser a foz do rio. Finalmente chegara, pensei, quando desfizesse a curva, lá estaria a marina de um lado, e do outro, as emblemáticas palmeiras do passeio alegre, e depois mais adiante suspensa nas encostas granítica, a fabulosa ponte da arrábida. Mas não foi nada disso que encontrei.

quinta-feira, 2 de março de 2017

balbuciar


Separados por menos de um metro e não lhe consegui dizer que não sentia a cara quando estava perto dela. Ou o que quer que fosse. Tinha um amigo que quando bebia demais, começava por deixar de sentir o queixo, e depois gradualmente o resto do corpo. Ela não disse nada. Isto são péssimas noticias. Desconfio que o fim pode acontecer antes do início, e sim, isto pode também ser o fim de tudo. Era suposto a escrita afastar-me da loucura, mas sinto que nos aproxima. 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

questão

... ou post barra questionário, às pessoas que sorriem pouco, ou a todos aqueles que um dia foram alvo de um sorriso raro!

Dizem os meus espiões que é raro ela sorrir. Também é raro conversar no corredor com alguém, mesmo os cumprimentos são muito contidos e a sua voz é quase um murmúrio. No entanto eu conheço outra pessoa na mesma pessoa, que em condições diferentes falou pelos cotovelos, como se aproveitasse cada segundo em que estava na minha presença para me mostrar o seu lado que sorri. Mas posso estar enganado. Também me engano e não é assim tão raro. Os meus espiões dizem que a viram sorrir também, e que só a mim ela me acena ao longe. E procurou em várias ocasiões o meu olhar. Tenho testemunhas. E eu que normalmente sou efusivo, provocador, sempre a sorrir com ar de idiota, quando estou diante dela fico mudo, intimidado, como que enfeitiçado pela sua voz que não é mais que um estalar de espuma do mar.  

Pessoas que sorriem pouco e que passam a sorrir para uma determinada pessoa, isso é o quê, exactamente? 



Montt

domingo, 26 de fevereiro de 2017

aburrido

ao fim-de-semana aborreço-me de morte...

Alberto Montt
o que será que ela faz ao fim-de-semana?

sábado, 25 de fevereiro de 2017

trinta

O homem preparou a massa sob o olhar atento dos jovens. Todos queriam ajudar, mas distraiam-se com mensagens no whatsapp, instagram, facebook. Partilhavam fotos, deformavam-se com aplicações, macaqueavam selfies. Outros seleccionavam músicas no youtube, spotify, e iam afinando vozes e passos de dança. Quando a pizza finalmente saiu do forno, correram para a mesa sem ser necessário chamar. O homem pouco comeu, estava cansado, mas agradava-lhe a mesa cheia e barulhenta. Nunca se imaginara a alimentar tantas bocas esfomeadas que elogiavam a sua arte de criar comida a partir de ingredientes simples. Mas comiam tanto, em segundos tudo o que levara horas a preparar, desaparecia em migalhas. Já se tinha esquecido como seria na idade deles. Tentava esse exercício vezes sem conta, lembrar-se como era, o que fazia, do que gostava com pouco mais de vinte anos. Mesmo eles queriam saber como era, que músicas ouvia por exemplo na escola primária. Ele ria dessas perguntas, era tudo tão diferente, não havia mp3, nem sequer cd’s. Não se descarregava música como se fosse tirar água à fonte. Em oitenta e tal podia escolher ouvir rádio, ou os vinis dos pais repetidos vezes sem conta. E foi então que se lembrou do dia em que o Zeca faleceu. Como se fosse um amigo próximo, um familiar que deixava muita saudade. O Zeca que nenhum daqueles jovens conhecia, o mesmo Zeca que lhe ensinara palavras difíceis como liberdade, desterro, vampiros, piranhas. "Eles comem tudo!" pensava. Queria dizer-lhes que aproveitassem cada dia como se fosse único. Também queria dizer-lhes que não "comessem" tudo, que duvidassem de vez em quando, que não se entregassem. Mas em vez disso ficou a admirar as suas brincadeiras, participou delas como se não estivesse tão próximo dos quarenta, como se os olhos já não tivessem visto muito, como se a pele não se encostasse como dunas nos cantos. Não aguentou ficar para além da uma hora do dia seguinte. Mas sabia que a maioria deles ficariam até muito tarde, e antes de se deitarem, haviam de misturar uns ovos com salsichas na sertã. Disso ele lembrava-se, dos ovos e das salsichas que o salvaram várias vezes nas madrugadas frias, e que continuavam a salvar as gerações seguintes. 


não seria nem cigano nem maltês, se o Zeca não o tivesse cantado. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

janota

Há quem me chame de lindinho. mas eu prefiro que me tratem por jeitoso. ou então guapo, lindaço, janota, pedaço. Uma vez gritaram na rua "pão", "casqueiro", "marrucate", "miconde", "oh bom", tudo seguido, por esta ordem. Na altura não dei ouvidos, continuei a assobiar alto, achei que não era comigo. Mas logo se tornou um tormento sair de casa, chegar ao trabalho uma tarefa impossível. As moças caíam-me literalmente aos pés, lançavam-se aos tornozelos, atiravam-se em desespero. Temia pisá-las, dar-lhes desgostos,  não suportava as choradeiras, as olheiras, depressões, resmas de culpa. Então deixei crescer primeiro um bigode, depois uma barba cerrada e durante uns tempos usei um gorro bem feio. Foi remédio santo. 

Alberto Montt

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

haste

lembro-me que naquela manhã, as hastes dos pinheiros derretiam ao sol.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

joule

ilmatecuhtli não dormiu. Esteve toda a noite a batalhar com pesadelos. De arco em punho, disparou um milhão das suas setas feitas do pó que sobra das estrelas. Está sentada na espuma da rebentação, alivia as dores das mãos cheias de bolhas na água fria. O seu elmo de escamas prateadas anda à deriva no mar. ilmatecuhtli não acordou pequenina, não passeou pela praia de mão dada, não escolheu beijinhos na areia. Continua sentada no frio, abandonada de forças. Mesmo assim aproximo-me com cuidado. Sinto a orelha queimar, depois o calor desce por toda a cara, goteja do queixo. ilamtecuhtli prometeu queimar-me se lhe faltasse na batalha. Quanto mais me aproximo, mais me queima. Quando estou a menos de um passo, ela ergue os olhos.






sábado, 18 de fevereiro de 2017

ngultrum

A mulher de olhos rasgados que me pegara na mão para a ler, tinha razão. Mas tudo o que nela estava escrito já era do meu conhecimento. Não é comum, mas algumas pessoas nascem mortas e perdidas, disse com um sorriso amistoso. O sinal mudou e atravessei sem correr por entre a chuva. Podia ser segunda-feira todos os dias, nem me importava, mas o efeito durava apenas um momento, e depois tudo voltava ao mesmo. Na terça as nuvens alinharam-se como um comboio rápido, na quarta as artérias ficaram vazias, e depois na quinta-feira beijou-me a testa na despedida. Pedaços de cal caiam-lhe do peito, enquanto a imagem dela oscilava no precipício do esquecimento. Por fim veio sexta e apesar de ter anotado a morada, a tinta entranhara-se e as campas eram todas idênticas. 





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

zaklęcie

Nem um único post sobre mamas... é essa a consideração. A vossa sorte é que ela lançou-me um encantamento. Numa sala pequena e cheia, ela num canto, eu no extremo oposto, de permeio uma mesa grande, e à volta uma multidão de vinte ou duzentos esfomeados. Ela do outro lado evocou um feitiço. Eu no meu canto não me desviei.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

defeito

Prontos! Podem começar a namorar os biquínis, tirar o pó aos sombreros, repor os stocks de protector solar. Ontem mandei retirar o último lote de nuvens que ainda pairavam sobre o território nacional. Afinal estavam com defeito e fugas tremendas nos depósitos. As andorinhas que venham, é seguro.



livrem-se agora de vir praqui falar em s. valentim e cenas tristes... 
sugiro que postem sobre biquínis, ou sobre topless, mamas ao léu, nudismo, coisas assim,. não sou esquisito. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

defunto

o ponto alto da semana foi o sonho que tive numa superfície de venda a retalho de origem alemã que agora não interessa mencionar porque os gajos são uns aldrabões e não me querem pagar a publicidade que lhes fiz. dito assim é assustador mas mais grave é desconfiar que estou morto e não dei conta disso. 



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

lidl

não contava lembrar-me dos sonhos destes dias de fevereiro. há qualquer coisa de estranho num mês que começa numa quarta e termina a uma terça, mas hoje aconteceu lembrar-me. talvez por ser quarta, ou porque foi um sonho longo, desfiado durante toda a noite. era longo e lindo, e lembro-me muito bem da parte do beijo, os seus lábios grudados nos meus como se fosse uma polva gigante, e os braços como tentáculos enrolados em torno do pescoço mantinham as nossas bocas unidas. o beijo parecia não ter fim. não lhe conseguia ver a cara, mas sabia que aquela mulher era mãe dos meus filhos. a menina tinha os olhos grandes que só podiam ser como os da mãe. era manhã cedo e ela cavaqueava com todas as pessoas que encontrava no autocarro. alguém lhe perguntava a idade, e eu não sabia responder. se havia mais filhos eles não apareceram. tinha três empregos. no restaurante a cliente habitual que eu tratava pelo primeiro nome pedia-me um acompanhamento de legumes. depois eu servia-lhe um prato com pequenos cubos de carne que pareciam peças de lego negras. ela comia tudo. ao fim do dia, depois de fechar a loja, repunha prateleiras de supermercado. mas antes tinha de escorraçar as pessoas que se disfarçavam de capas de edredão e dormiam nessas prateleiras. penso que era o lidl pois vendiam roupa em prateleiras. foi no momento em que encontrei um indivíduo no meio das sweats verdes embaladas que ela apareceu e pregou-me o beijo. 


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Сталкер

O porteiro que nos viu entrar juntos uma vez, diz que a probabilidade de ser divorciada é grande. Sem filhos, acrescenta, ou não ficaria a trabalhar até tarde. Sabe ainda pela senhora que tira os lixos e limpa o chão, que gosta de chocolates da máquina e chá. 

Сталкер ou Stalker,  filme de 1979,  Andrei Tarkovsky

domingo, 5 de fevereiro de 2017

olfacto

Abri três páginas de word, com esta quatro, mas não ponho muita confiança em nenhuma. Tenho três narrativas em avanço, em qualquer das frentes emperrei, ou por falta de pesquisa, ou por falta de cabos que liguem as ideias. Balestra é uma palavra nova. Digo-a em voz alta enquanto separo a roupa branca na máquina. Acumula-se loiça na pia, o cesto da roupa transbordou, há um rasto de migalhas em todas as divisões, e eu aqui a tentar o impossível. Ontem nem tirei o pijama, perdi o olfacto, passei horas a olhar para o tecto, imaginando seios macios, dedos a deslizar pelo pescoço, pés descalços e frios. Às vezes esqueço-me do c em olfacto, mas nunca no tecto. 



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Dulcineia

Todos os dias tenho perdido o autocarro da manhã. Independentemente da hora a que saio de casa, o autocarro passa por mim a todo o gás e fico a vê-lo ir, sem hipóteses de correr para o tentar apanhar. Já nem sei porquê que fiquei surpreendido, foi assim durante toda a semana, hoje sucedeu o mesmo. A consequência desta perda é que tenho de esperar pelo próximo, e não sou muito de esperar. Depois também acontece que chego tarde e abro a loja depois da hora, mas também não há clientes à espera desejosos de entrar, e os que por vezes aparecem, é por engano. Fico então toda a manhã a olhar para o aquário de nuvens, vendo-as flutuarem umas contra as outras numa atmosfera de azoto, enquanto bebo cinco ou seis chávenas de chá. Quando alguma coalha e fica espalmada contra a superfície, vou lá com o coador do leite e pesco-a. Depois do almoço costumo descer à cave e ligo o gerador de baixas pressões. Gosto de manter o stock cheio para alguma eventualidade. Em seguida verifico a carga das trovoadas das últimas prateleiras, agito os tornados e tufões, meço os níveis plúvios, confirmo os boletins meteorológicos e noticiários, ou acerto as comissões com a indústria de guarda-chuvas. A tarde passa num correr. Mas hoje não fiz nada disto, deixei-me ficar todo o dia a olhar para as nuvens, a bebericar chávenas de chá que gradualmente iam perdendo o sabor. Sinto-me cansado. Mas toda a gente diz que é normal, foi do trabalho, que realmente a tempestade é de categoria. Há quem pense que carrego num botão e sai da máquina uma ventania já empacotada, pronta a enviar. Mas não é assim, e quando são ventos ciclónicos, é de suar as estopinhas. Mas fiz tudo com muito gosto, esperando que seja do seu agrado, que lhe levante o animo e lhe arranque todo o mal para longe. Porque já lhe sinto a falta do sorriso e ela ainda aqui está. Mas também porque não quero que outros façam o mesmo. Quero que se sintam avisados. Tentem-me, e mando cair o céu. 

Prairie Rain Storm, by Min Ma





Dulcineia foi o nome que criei originalmente para a tempestade em questão, mas alguns entendidos acharam que Doris ficava mais no ouvido... divindade aquática... coisas de marketing. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

meditation

pensei talvez fechar os olhos e não ver mais o lado negativo. construir durante a noite uma estufa e plantar às apalpadelas rebentos de vontades. já os vi enlatados, vinham lá do sudeste asiático, banhados pelas cheias do mekong. e cansado, morto pelo trabalho, deitava a cabeça nas mãos e imaginava um sonho em que ela tivesse ido, que ficasse sentada ao meu lado e lhe confessava ao ouvido, porque o barulho era alto, coisas que só se dizem quando estamos perdidos. ou bebados. não será motivo suficiente para morrer, mas desde aquele dia já não sei se vivo, ou se é somente uma lesão.




não consegui escolher qual a versão preferida deste Meditation de Massenet

domingo, 29 de janeiro de 2017

undívago

Afago-lhe a cabeça no sentido do pelo, mas ela recusa abrir os olhos. Cheia de ronha faz-se morta aos pés do moço. Está um dia tão bonito lá fora e este desperdiça a juventude dele a dormitar até tarde, mas não adianta dizer-lhe que um dia as pernas vão-lhe faltar e se amargurara das horas que dedicou à preguiça. A fome salta para cima da cama, pisa o moço com elegância. A preguiça rosna-lhe baixo, mostra-lhe os comilhos brancos. Mas a fome não se deixa intimidar, procura outro ângulo de ataque, e com a língua de lixa, lambe a preguiça da cama. 

roubado daqui



Ela volta a procurar a minha companhia, convida para jantar lá em casa, pede-me receitas, conselhos, e eu recuso tudo, desculpo-me com poucos argumentos. Desola-me ela não perguntar porquê que estou triste, não queira saber o que se passa, o que mudou. Na noite passada voltou aos meus sonhos. Estávamos sentados na cozinha, e a chuva batia com força na janela, era tanta que a rua e as casas em frente se tinham tornado manchas desbotadas. Conversávamos de trivialidades e ela confessou que tinha feito uma tatuagem, no pé. Não quis saber o que era, o meu subconsciente fazia a pergunta e respondia sem articular qualquer som. Fiquei em silêncio, imaginando os caracteres japoneses com o nome dele. E ela que tinha uns pés perfeitos, agora estavam marcados e registados como posse de outro, para sempre. É notório que continuo a gostar dela, a preocupar-me com ela, embora sempre que me aparece com aquele horrível cachecol de lã laranja que o chefe lhe ofereceu e ela desde esse dia nunca mais o tirou, que só tenho vontade de a estrangular. 







首 (kubi) -  pescoço
Laranja seria um título muito mais apropriado, embora a primeira escolha tenha sido esganar.

sábado, 28 de janeiro de 2017

jejuno

... ou o dinheiro do frigorífico, os dedos do meu avô escrevem neste teclado e outras desgraças normais. 

Juntei dinheiro durante quase meio ano para um pequeno frigorífico. O outro velho que entrou lá em casa começou a fazer barulhos estranhos, e foi quando comecei a colocar dinheiro de parte para o substituir. No fim do ano o frigorífico ainda não tinha dado o último suspiro e então paguei ao Peres. Dei-lhe o dinheiro que tinha de parte e outro tanto que pedi emprestado. Quinze dias depois o frigorífico avariou.

Herdei os dedos do meu avô. Quando o sono se aproxima e a cabeça começa a tombar, ele toma conta dos meus dedos e escreve por mim. Entre cada parágrafo leva o cigarro à boca e fecha os olhos quando o fumo o envolve. De manhã tenho várias linhas escritas que não me recordava de ter, e um montinho de cinzas no chão. 

Agora em vez de uma tenho duas para esquecer. E a primeira não está a facilitar as coisas. Não quero escrever mais sobre isto, aliás, não quero escrever sobre mais nada. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

gówno

Um pardal no passeio faz-me perder o passo. Finta-me do chão a menos de um metro dos meus pés, mas depressa retorna ao frenético debicar pelas migalhas que a carrinha do transporte do pão sacudiu. O pardal não me temeu. Olhou-me lá da sua pequenez com tranquilo desdém como se dissesse: sim, és uma merda!

daqui

isquemia

ontem o dia foi de nuvens. "L'amour est un oiseau rebelle" cantarolei no caminho de regresso a casa, saltitando como um melro apaixonado.

 hoje o dia foi de cimento.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

imperial

Gustav Klimt - water snakes I



Descobri que não sonho em tecnicolor. Também não é preto no branco. É algo mais complexo, como as palavras. Nos sonhos as palavras escritas são traços sem sentido, abro livros ou sigo sinais na estrada e só vejo traços, símbolos abstractos. Mas quando preciso de entender o que dizem, as palavras conjugam-se dos traços e surgem tal e qual como agora as escrevo. Descobri isto recentemente e convenci-me que o mesmo acontecia com a cor: ela só aparecia quando era necessária, dependendo do contexto. Mas estava equivocado, agora sei que só existe uma cor com diferentes tons e às vezes a mínima diferença entre desmaiado e palha é suficientes para conferir profundidade aos planos. Ou dar ao mar o sabor de cerveja e a todos os pássaros a voz do canário. Hoje descobri  que sonho em amarelo.

quimera



Metade de mim acordou a meio da noite morto.
A outra metade continuou a sonhar.