terça-feira, 21 de novembro de 2017

conjugação

Acordo com respostas a meio dos sonhos. Círculos rolantes desdobram-se na penumbra fria. Levam menos de um minuto a duplicarem e volto a adormecer, esquecendo a resposta e a pergunta.


domingo, 19 de novembro de 2017

notório

Às vezes questiono-me porquê que a natureza se deu a tanto trabalho para produzir um ser humano praticamente perfeito como eu. São duzentos mil anos de aperfeiçoamento desde a pedra lascada para originar um espécime extraordinário. Mesmo eu fico espantado com as minhas capacidades. Que prodígio!
É que até debaixo de água sou formidável. Pensei eu, enquanto olhava uma última vez para a mulher que canta no coro.
Ela também não é de se deitar fora.
Diria que foi um tremendo desperdício.


"Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito."



sábado, 18 de novembro de 2017

bananas

"At my age, I don’t even buy green bananas”


domingo, 5 de novembro de 2017

nimbus

Aconteceu em meados de agosto o senhor mau-tempo precisar de dinheiro para mandar remendar uma canalização de humor, tendo por isso vendido o seu rebanho de nuvens no olx. Era um bom rebanho de cumulonimbus prateados, quase a desenvolverem para supercélulas, mas colocados à venda na pior altura do ano. Por volta das cinco o primeiro interessado apareceu, coberto por uma burca escura que só se lhe via os olhos. Primeiro o estranho quis ver a mercadoria. Tirou uma fita negra do bolso e mediu todos os perímetros, confirmando os quinze quilómetros de altura. Fez algumas perguntas, tirou fotos e depois mostrou interesse em levar juntamente os suportes. O senhor mau-tempo prontificou-se logo a desmontar toda a estrutura onde as nuvens estavam suspensas, para não ganharem fungos. É que as nuvens, principalmente da espécie nimbus, podem ficar escleróticas se deixadas em superfícies sólidas, ou em zonas com luz directa. Por isso o senhor mau-tempo mandara colocar na salinha das traseiras, um engenhoso complexo de estendais onde as nuvens ficavam suspensas e abrigadas do sol, arejadas por uma goteira que vinha do frigorífico. Quando o senhor mau-tempo estava a empacotar a última nuvem, e suava como uma bica aberta, o estranho homem coberto da cabeça aos pés recebeu um telefonema. O senhor mau-tempo, que é pessoa de pressentir certas energias nas coisas e nas pessoas, pressentiu que talvez aquele sujeito não fosse sério e que talvez tivesse sido boa ideia pedir um sinal antes de se dar a tanto trabalho. Então quando o homem terminou a chamada e disse: "afinal não levo nada", o senhor mau-tempo não se surpreendeu, e com toda a calma que ainda tinha em fim de prazo, pegou no homem pelas extremidades da burca e defenestrou-o contra a parede. Tanto trabalho a desmontar os suportes, a empacotar as nuvens em plástico bolha, gastara quase um rolo de cuspe sintético, e agora tinha de desembrulhar todo o rebanho, voltar a montar os suportes e colocar de novo em cada um, desenevoadas e sacudidas, as suas queridas nimbus. 


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

arresto

Acho que estou a morrer mais rápido. Já não é aquela cadência que mal se nota. E para agravar, mais de cinquenta por cento das mulheres com quem me cruzei, tanto no caminho de ida como de volta, me pareceram lindas, mas mesmo lindas de morrer. Talvez seja da abcisão foliar ou desta névoa densa que torna tudo ainda mais belo, quase irreal. Mas também pode ter sido qualquer coisa que comi naquela festa. Metade não era identificável, no geral tudo tinha mau aspecto, mas o sabor ainda era pior. No entanto, e em qualquer dos sentidos da viagem, estava sóbrio. Pode então ser uma revelação. Toda a prosa e verso fica entendida como num milagre. Ouço as vozes dos poetas no arresto, os braços em torno do teixo áspero, o frio colado à pele na penosa despedida do mundo. 





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

vitrine

O homem deixara de ser homem de carne e osso. Não no verdadeiro sentido da palavra. Ele continuava a ter corpo, continuava a sentir dores ao acordar, o seu estômago roncava meia hora antes da pausa do almoço, a barba e as unhas cresciam com o mesmo empenho, mas a sua alma já não era una a esse corpo. Era assim uma identidade, como um vírus, que carrega o seu código genético, mas não é gente. É um erro bastante comum associar a vida ao código genético. Lá porque tem ácidos nucleicos, não quer dizer que seja um ser vivo. Os vírus são parasitas obrigatórios, para se multiplicarem necessitam de usar os mecanismos de reprodução das células que parasitaram. Eles entram nas células do hospedeiro, transferem o seu material genético e a célula do pobre infectado faz todo o trabalho de produzir novas partículas víricas. Por isso não são considerados organismos, apesar de possuírem ADN ou RNA. Mas voltemos ao homem que se desprendeu da sua alma, ou talvez seja o oposto: a alma deixou-o. Ele não existe, é apenas uma memória daquilo que foi, vive dos pensamentos. O homem é uma identidade, mas antes foi homem de carne e osso. A alma era o hospedeiro que tomou um antivírico. Não levou mais de um mês a ficar assim e só ele não se apercebeu das transformações que ocorriam. Gradualmente foi desaparecendo, até não se reconhecer no reflexo de uma vitrine. 


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

urdir

ela, a ruiva, diz que os nossos diálogos são pouco edificantes. eu, na minha inocência máscula, sempre achei que eram rastos de cometa em direcção ao infinito...

daqui